quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

"Gemini Planeta Sombrio" sonha em ser Alien , o 8º passageiro

 


Lá nos idos de 1977, era o início da preservação de massas e Lavoisier já dizia "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", mas, muitos anos mais tarde, alguém sentenciou: "Na natureza nada se cria, tudo se copia"e podemos dizer que no Cinema, também, nada se cria e tudo se copia.

E o longa "Gemini: O Planeta Sombrio"tá aí pra provar isso.

Dirigido por Vyacheslav Lisnevky e Serik Beyseu, o filme, que tem estreia nos cinemas brasileiros em 5 de janeiro, conta a história de uma equipe de cientistas enviada pra outro planeta em uma missão pra tentar recuperar a Terra que vem sendo devastada por um vírus mortal.

Brincando de Deus e numa arrogância peculiar, Steve,  protagonizado por Egor Koreshkov, põe toda a tripulação em risco ao insistir que uma esfera seja deixada numa caverna, pois ele acredita que essa é a única solução para salvar o Planeta Terra.

O filme é nitidamente baseado em "Alien, o 8º passageiro", de 1979, dirigido por Ridley Scott. Uma tripulação tem a missão de salvar o Planeta Terra, mas acaba se deparando com um ser misterioso que acaba atacando e matando membros da tripulação, além, é claro, de causar verdadeiro terror no espaço.

A forma do monstro de Gemini é muito semelhante ao alien do filme Alien, o 8º passageiro, o som que ele emite também é o mesmo e várias passagens do filme remetem ao longa de 1979, mas diferente da versão de Ridley Scott, o alien de Gemini é um bio robô.

Claro que é um filme que prende, o suspense é intensificado com o retardamento da narrativa clichê de cenas em que luzes vão se apagando para anunciar a aproximação da criatura, mas não há nenhum elemento realmente novo que faça com que o filme seja melhor do que a genuína de 1979.

Estamos diante de uma criatura desconhecida, de um homem brincando de ser Deus, de saltos no tempo e espaço e uma música melancólica que acompanha muita gosma durante o filme.

Pra quem gosta do gênero e quer relembrar um pouco de Alien, o 8º passageiro é um prato cheio e pra outros é apenas uma boa maneira de se passar o tempo.

"Nossa Senhora do Nilo"reabre as feridas do massacre em Ruanda


"Eu lembrava-me de tudo: do Ginho, da pressão-de-ar, da Isaura e das feridas penduradas do Cão Tinhoso. Nunca me esqueci disso: um cão com feridas penduradas. Os olhos do cão. Os olhos da Isaura. E agora de repente me aparecia tudo ali de novo."

É dessa maneira que o escritor Ondijak começa seu texto e o filme "Nossa Senhora do Nilo", dirigido por Atiq Rahmi, apesar de africano como o conto de Ondijak, nada tem a ver com as feridas penduradas do Cão Tinhoso, mas tem a ver com as feridas abertas que o massacre em Ruanda entre os anos de 1990 e 1994 provocaram.

Numa escola religiosa católica pra meninas da elite de Ruanda, no alto de uma colina e totalmente isoladas do mundo, meninas sonham em ser esposas, mães, artistas de cinema e deusas. Elas não sabem o que acontece em seu país e questionam que Deus abençoa os negros.

É um Deus que devia ajudá-las, orientá-las e protegê-las, mas nessa escola, as forças dos homens mortais são mais forte e uma adolescente grávida é vergonha e desaprovação.

Também é proibido ter contato com bruxas, falar o idioma local e conversar em afazeres diários como a limpeza de uma biblioteca ou de uma santa.

Esse Deus tão presente em seu dia a dia parece tirar férias quando elas mais precisam de sua proteção e elas ficam abandonadas quando o lugar que elas vivem vira palco para lutas políticas e incitações para crimes raciais.

Pra quem não sabe, entre os anos de 1990 e 1994, uma Guerra Civil se instaurou em Ruanda motivada pela disputa étnica entre os hutus e tutsis e a escritora Scholastique Mukasonga, autora da obra de mesmo título do filme e que inspirou o diretor Atiq Rahmi, é uma das sobreviventes do massacre em Ruanda e, portanto, personagem dessa história contada por ela e muito bem retratada por Rahmi.
"Houve um silêncio como se tivessem disparado bué de tiros dentro da sala de aulas. Fechei o livro. Olhei as nuvens."e assim termina o conto sobre o Cão Tinhoso de Ondijak, mas na história de Mukasonga dispararam mesmo bué de tiros dentro da sala de aula, houve silêncio, mas eram pessoas que morriam por serem negras.

"Na oitava classe, era proibido chorar à frente dos outros rapazes.", mas nós choramos com o destino de quem acompanhava Mukasonga e ficamos chocados por perceber que, diferente das feridas do Cão Tinhoso, as feridas de Ruanda são reais e ainda doem.

"Nossa Senhora do Nilo", estreia no próximo dia 5 de janeiro nos cinemas, tem 93 minutos e é distribuído pela Pandora Filmes.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A descoberta de uma mulher de meia idade em "Como agradar uma mulher"


Uma mulher com mais de 50 anos perde o emprego, vê seu marido totalmente desinteressado e, quando faz aniversário e suas amigas lhe dão de presente um stripper por 2h, o que ela pede a ele é que ele limpe a sua casa.

Quando uma mulher envelhece tudo acaba? Não há mais oportunidade de emprego, o interesse sexual diminui drasticamente e a única função para o qual ela ainda tem serventia é a de realizar os afazeres domésticos, é isso?

Não deveria ser assim, mas para muitas mulheres que entram na meia idade é exatamente o que acontece.

E é pensando nisso que a cineasta Renée Webster quer, em seu primeiro longa, que o espectador reflita sobre a inutilidade feminina após os 50 anos.

"Como agradar uma mulher", que estreia na próxima 5ª feira, 29/12, nos cinemas, nos apresenta Gina, uma mulher de um pouco mais de 50 anos que se reinventa ao perder o emprego e, ao conhecer 4 homens de uma empresa de mudança falida (sendo um deles um stripper), tem a ideia de oferecer às mulheres algumas horas de prazer sexual com um desses homens ou simplesmente o prazer de verem sua casa sendo limpa por um homem bonito e com barriga cheia de gominhos.

A velhice não chega bem a ninguém, mas pra uma mulher, além da mudança corporal, parece que todas as portas começam a se fechar. Há a vergonha por não se ter um corpo bonito, o mercado de trabalho se torna escasso e até mesmo sentir prazer parece ser um assunto quase que proibido e um verdadeiro tabu.
E é por meio da personagem de Gina que Renée Webster nos mostra essa dura realidade.

Gina perde o emprego, seu marido já perdeu o interesse nela há anos e até mesmo num vestiário feminino ela se vê fechada e infeliz, o que a impossibilita de se mostrar nua em frente às amigas.
É a possibilidade de dar a outras mulheres aquilo que ela não teve é que Gina começa a se transformar.

Num estilo "Ou tudo ou nada", filme de 1997 dirigido por Peter Cattaneo, as personagens masculinas aceitam a proposta de Gina e, assim como ela, começam a aprender como olhar uma mulher e como entender a necessidade de cada uma. Na vida, nada é mecânico e nem todas as mulheres são iguais. Muitas estão infelizes com o trabalho, com o corpo, com o casamento e querem ser vistas como seres humanos e não só como mero organizador do lar.

"Como agradar uma mulher" é divertido, sensível e Renée acerta na maneira em como mostra uma mulher de meia idade infeliz e no seu desabrochar a medida em que perde o medo da vida. Vemos sua transformação e seu empoderamento e percebemos que as mulheres podem ser e fazer o que quiserem em qualquer que seja a idade.



domingo, 4 de dezembro de 2022

Sol e as fragilidades das relações humanas


 O que liga as pessoas nessa vida são os vínculos, que podem durar um tempo, ser pra vida toda, ou simplesmente se romper abruptamente.

Mesmo que seja sangue do mesmo sangue, há laços que se quebram e são extremamente difíceis de serem resgatados. É como uma louça que se parte em centenas de pedaços. Nem sempre há cola que possa juntar com perfeição algo que se quebrou.

E assim como as águas de rio e mar que nem sempre se encontram, o longa Sol, dirigido por Lô Politi e que estreia no próximo dia 08 de dezembro nos cinemas, nos apresenta a Theo, interpretado de maneira brilhante por Rômulo Braga, um artista solitário, pai de Duda (a estreante Malu Landim) que perdeu vínculo não só com ela a quem não via há cerca de um ano, e com seu pai, Theodoro (Everaldo Pontes) o qual ele descobre, através de insistentes telefonemas, que se encontra em estado delicado num hospital no interior da Bahia.

Cumprindo o papel de filho sem ao menos querer, Theo embarca em uma viagem com a filha para reencontrar o pai e decidir o destino dos três.

Interessante perceber que Theo não tem intenção nenhuma em reencontrar o pai, na verdade não quer nem mesmo ter mais o mesmo nome que ele e de Theodoro que em grego significa presente (dóros) de Deus (Theos) sobra apenas esse Deus que os une mesmo sem Theo querer.

Nessa briga interna em cumprir sua função de filho ou apagar da memória um tempo que não retorna mais, Theo ainda tem que se ligar à filha que, sem perceber, ele não conhece, pois não sabe nem do que ela gosta de comer no café da manhã.

Sol escancara as feridas abertas de Theo. Mostra o ódio que ele sente pelo pai e a fragilidade de sua relação com a filha. Aponta que Duda se conecta mais com o avô sem ao menos conhecê-lo do que com ele e que o vínculo pode ser criar tão facilmente quanto quando se quebrado.

Sol é um roadie movie que começa na água e termina na água. Águas ora calmas ora turbulentas como a vida de Theo e como a vida de todos nós. Águas que trazem boas lembranças, que machucam e que constroem lembranças novas. Águas que estreitam laços e desfazem nós, que dão e tiram vidas, mas que marcam e não nos deixam esquecer.






terça-feira, 29 de novembro de 2022

Plano A traz as feridas do holocausto abertas e nos fazem refletir se a vingança é a melhor solução.


 



Dizem que a vingança é um prato que se come cru ou talvez deva ser lenta e dolorosa, olho por olho, dente por dente e pro judeu que sobreviveu aos horrores do holocausto, essas máximas estão marcadas no corpo, na alma e no coração. 

Pensando nisso, o que você faria se toda a sua família fosse assassinada sem motivo algum?

E a resposta à essa pergunta é a reflexão que os diretores  Doron Paz e Yojay Paz querem que o espectador faça ao se deparar com Max, um judeu sobrevivente do holocausto que perdeu sua mulher e filho e agora pretende se vingar das pessoas que fizeram, não só a ele, mas milhares de judeus sofrerem.

Plano A, que estreia nos cinemas no próximo dia 01 de dezembro, é uma história baseada em fatos reais e acompanha a dor e a ira de Max e também o grupo de germano poloneses a quem ele se junta que, compartilhando da mesma dor, planeja manipular o abastecimento de água potável em várias cidades da Alemanha, jogando veneno nessa água e, eliminando assim, toda a população alemã.

É interessante ver como isso é planejado e como, na verdade, eles querem dar, aos alemães, o mesmo fim. O que não percebem é que, em meio a essa população, também há pessoas inocentes e que não apoiaram o extermínio de cerca de 6 milhões de judeus. 

Claro que, pensando em vingança, Tarantino também sugeriu o mesmo fim aos alemães em seu brilhante Bastardos Inglórios. Shoshana também queria vingança, mas na obra de Tarantino, a Alemanha ainda estava sob o domínio de Hitler. Em Plano A não. Os judeus já estavam livres e podiam, de alguma forma, reconstruir suas vidas, mas nós, que não tivemos a vida das pessoas que amamos ceifadas pelo holocausto, não poderemos, jamais, imaginar o tamanho dessa dor.

A dor de quem viveu o holocausto cega, ensurdece, machuca àqueles que, de alguma forma, escaparam e sobreviveram e se culpam por não terem conseguido salvar a quem tanto amavam. 

Acompanhando uma fotografia fria e escura, as cicatrizes do holocausto permanecem aprisionadas num saco de couro que Max recebe de um companheiro também sobrevivente e no cinema que, ao invés de alegrar e divertir, escancara os horrores do nazismo e surra ainda mais quem deseja esquecer.

Plano A é sobre sobrevivência, vingança e surpreende no final, mas não deixa que você se esqueça da pergunta inicial: O que você faria se roda a sua família fosse assassinada sem motivo algum?


domingo, 6 de novembro de 2022

Arthur Moreira Lima mostra que a música é para todos


Mais de 1 milhão de pessoas em mais de 500 cidades do Brasil. Foi assim que entre 2002 e 2018 o pianista Arthur Moreira Lima resolveu, após ter rodado toda a Europa, levar seu piano e a música a pessoas que, muitas vezes, sequer haviam visto um piano.

É acompanhando essa incrível jornada que o documentário Arthur Moreira Lima - um piano para todos, que estreia nos cinemas no próximo dia 10 de novembro, mostra o quão simples esse renomado e premiado pianista é.

Com um caminhão teatro e sua música clássica, Arthur Moreira Lima leva música a todos gratuitamente.

Arthur que sempre deu a vida para tocar piano, rodou o mundo se apresentando em grandes concertos para pessoas que se dizem entendidas em música clássica, deixa para trás o luxo das grandes salas e se preocupa em fazer com que as classes mais baixas também tenham cultura e coisas de qualidade.

Durante 87 minutos somos a câmera que acompanha Arthur e sua equipe. Andamos em meio à lama, pegamos balsa e admiramos os olhares atentos de quem nunca ouviu Mozart, Chopin ou Tchaikovsky.

São olhares vidrados e apaixonantes. Olhares de quem se deixa levar pela música clássica e se deslumbra com as mãos ágeis de Arthur que dedilham com destreza e suavidade as notas mais graves e agudas, de concertos escritos há mais de um século e que, nos dias de hoje, trazem tanto alento.

Como ele mesmo diz, sua profissão, hoje, é ser Arthur Moreira Lima. Seu concerto ao ar livre se assemelha a uma missa campal e, assim como na vida e nas narrativas, a música também tem seus pontos culminantes e diferente de pessoas poderosas que acham que o pobre se satisfaz com uma laranja podre, Arthur lhes entrega um banquete digno de grandes castelos e mostra que a música alimenta a alma e é para todos.


Em pleno 2022, A Mãe nos revela que a ditadura não acabou.


Maria é mãe de Valdo. Mãe solo batalhadora que vive como camelô numa cidade em que não há emprego, comida e dignidade para todos.

Valdo é um adolescente que cursa o ensino médio, faz rap e sonha em ser jogador profissional. Não gosta dos estudos já que num mundo tão desigual tem que sobreviver de alguma forma.

Ambos são frutos de uma sociedade injusta, de um governo que não se preocupa com o pobre e de uma população que idolatra a milícia e a extinção dessa parcela pobre da população.

Podíamos aqui estar apenas falando de ficção, mas a gente sabe que o enredo de "A mãe, filme dirigido por Cristiano Burlan e que estreia nos cinemas no próximo dia 10 de novembro, extrapola o fictício e nos mostra que em pleno 2022 a ditadura militar permanece em forma de uma polícia que discrimina, tortura e mata, pois é essa a solução que muitos veem para acabar com a miséria que está cada vez maior e mais presente em nosso país.

Vencedor de vários prêmios no Festival de Cinema de Vitória, "A mãe"traz Marcélia Cartaxo como Maria, numa atuação comovente e que mostra o quão é sofrido viver no Brasil dos dias atuais.

O que acontece com Maria acontece diariamente nas periferias brasileiras. Mães procuram seus filhos e tentam entender o porquê vidas são ceifadas tão precocemente e o porquê não há igualdade e oportunidades para todos.

A câmera de Cristiano Burlan é observadora, parece estar sempre à espreita e faz com que imaginemos o teor do bilhete escrito por Valdo antes de sair para não voltar mais e o que ele levava dentro da mochila que faz com que a polícia militar resolva executá-lo.

"A mãe"é um filme duro, podia até mesmo ser documental e mostra que mesmo quem está dentro da comunidade é pressionado pelos chefões que dizem proteger o lugar e fora dele nem a polícia civil e nem a militar ampara quem é pobre, negro, marginalizado.

Há de se demorar muito para se ter um mundo mais igualitário, justo e o filme de Burlan só mostra que essas pessoas vivem sob o medo e que muitas vezes o som do cotidiano são ofuscados pelas batidas fortes do coração acelerado que não tem um minuto de paz e serenidade, pois assim como o poeta já nasce com a palavra dentro dele, o pobre já nasce com um destino injusto traçado e poucos são os que  conseguem se livrar desse destino.

"Criaturas do Senhor" traz Paul Mescal e Emily Watson em discussão sobre abuso e maternidade.

Se você é mãe está lendo este texto, o que você faria para defender o seu filho? Acredito que muitas aqui responderiam a essa pergunta dizen...