quinta-feira, 13 de abril de 2023

"Criaturas do Senhor" traz Paul Mescal e Emily Watson em discussão sobre abuso e maternidade.


Se você é mãe está lendo este texto, o que você faria para defender o seu filho?

Acredito que muitas aqui responderiam a essa pergunta dizendo que fariam de tudo pelo filho. Pois bem, mas e se seu filho cometesse um crime, qual seria a sua atitude? Continuaria defendendo-o com unhas e dentes mesmo sabendo o quão errado isso é?

Produzido pela aclamada A24 e dirigido por Anna Rose Holmer e Saela Davis, "Criaturas do Senhor"estreia hoje nos cinemas e traz Paul Mescal (indicado ao Oscar de melhor ator por Aftersun) e a incrível Emily Watson (duas vezes indicada ao Oscar por "Ondas do Destino"e "Hillary e Jackie")  num drama familiar que nos faz justamente refletir o quanto uma mãe, ao querer proteger o seu filho, pode acabar emocionalmente com a vida de outras pessoas.

Na história que se inicia em uma vila de pescadores em que as pessoas não tinham o hábito de serem criadas para aprenderem a nadar, o filho de uma das moradoras dessa região morre afogado e, durante o encontro de Aileen (Watson), em um bar, com a mãe do menino morto - vale ressaltar que nessas regiões, apesar do clima de tristeza e pesar, é muito comum serem oferecidos almoços ou encontros com comida e bebida para se prestar condolências aos familiares da pessoa falecida - seu filho Bryan O'Hara, regressa à sua terra, a Irlanda, sem avisar e diz que voltou para ficar.

Feliz com a volta do simpático e amoroso rapaz, Ailleen não mede esforços para vê-lo feliz. Logo de cara ela arruma tudo para que ele possa trabalhar na fazenda de ostras da família e percebemos que a relação do filho com o pai não é das melhores, já que ele não se mostra nada feliz com a volta do filho.

Em nenhum momento sabemos do passado dessa família e, principalmente, a razão que fez Bryan ir embora da Irlanda e porquê ele resolveu voltar. Tudo é muito obscuro e tudo o que se pode ser entendido do filme fica nas entrelinhas dos diálogos e das ações das personagens.

Porém, há o abuso sexual de uma moça muito amiga de todos da família e, como primeiro suspeito, temos Bryan O'Hara.

Aileen quando interrogada sobre se estava com o filho na noite em que tudo aconteceu, confirma que sim e, a partir daí, não só as máscaras daquela família começam a cair quanto começamos a ficar cada vez mais intrigados em saber os motivos que levaram aquele jovem a ir embora para a Austrália e, consequentemente, o seu retorno à Irlanda.

Todos ali guardam histórias, segredos e não se abrem. O fato ocorrido começa a estremecer a relação entre mãe e filho e, também, entre Ailleen e as pessoas daquele lugar.

Talvez essa falta de informação incomode um pouco. O fato do espectador ficar sem respostas faz com que o filme termine e a gente fique por tempos e tempos digerindo tudo o que ali aconteceu.

A fotografia é escura até pra reforçar o aspecto frio do lugar e, logicamente, das pessoas e a atuação de Mescal e Watson não decepcionam.

Ela fala com os olhos e não precisa falar nada para mostrar os sentimentos de Ailleen com relação ao filho e toda aquela situação. Percebemos o quão angustiante e desolador tudo aquilo é e vemos o quanto ela vai se transformando à medida que percebe que proteger o filho não foi uma boa solução para o problema em que ele se envolveu.

Mescal também mostra que, além de seu papel em Aftersun, há muito a vir por aí.

É um filme interessante, mas não uma grande trama apesar das atuações. Vale conferir e refletir: Ser mãe é realmente proteger o filho de absolutamente tudo?

sábado, 8 de abril de 2023

"O Colibri" fala sobre escolhas e caminhos que nós decidimos seguir.


A vida é feita de escolhas, de caminhos que decidimos seguir, mas nem tudo o que planejamos pode realmente se concretizar. 

Como diria Drummond, existem pedras no meio do caminho, escolhas que devemos fazer, pessoas com as quais a gente cruza e que ficam para sempre e outras que a gente perde de maneira inesperada e que fazem com que a gente comece a trilhar um novo caminho para fugir da dor ou, talvez, suportá-la.

Mas o que teria a ver um colibri nesse caminho todo que percorremos?

Pra quem não sabe, colibri é uma especie de beija-flor e são os únicos pássaros que conseguem andar pra trás e pra frente e é nesse ir e vir que a diretora Francesca Archibugi nos presenteia com "O Colibri", filme que estreia no próximo dia 13 de abril nos cinemas e que traz no elenco Pierfrancesco Favino (Marco Carrera), Bérénice Bejo (Luísa Lattes), Benedetta Porcaroli (Adele Carrera) e Nanni Moretti (Daniele Carradori).

No longa, que é baseado no romance homônimo de Sandro Veronesi, acompanhamos de maneira não linear, a história de Marco Carrera e sua família. Seus amores, suas dores, perdas que vêm e vão de forma abrupta em todas as fases de sua vida.

É bonito ver como Francesca Archibugi trabalha a história, como ela movimenta a câmera num estilo que lembra muito as tomadas de Câmera de Paolo Sorrentino e como esses fast fowards e rewinds na narrativa, acompanham esses movimentos de câmera e fazem com que a gente se prenda à vida desse médico fã de The Clash.

Aliás, tudo da vida de Marco Carrera é belo e extremamente triste. À primeira vista parece que ele é passivo diante de tudo que se passa a seu redor, mas à medida que vamos conhecendo esse homem mais a fundo, a gente se coloca no lugar da personagem e percebemos o quanto seu sofrimento o faz não só amadurecer como também tomar uma das decisões mais difíceis no final de sua vida.

As perdas que todos nós temos enquanto estamos vivos nos machucam de maneira desoladora. Falta chão, falta ar e a dor nos provoca feridas profundas que, com o passar do tempo, se tornam cicatrizes, mas que incrivelmente nos tornam mais fortes. Força essa que não imaginamos que possa haver dentro de nós.

Talvez tenha sido isso que a diretora Francesca Archibugi tenha querido provocar em nós. Talvez ela tenha querido que revisitássemos a nossa vida e refletíssemos sobre tudo o que passamos e sobre todo o desconhecido que está por vir.

Pra quem for assistir a esse lindo filme italiano, é melhor preparar a caixa de lenços pois, pelo menos pra mim, foi impossível passar por ele sem chorar e lembrar das perdas recentes que ainda doem (e muito) dentro de mim. 

quarta-feira, 29 de março de 2023

"Sombras de um crime" tem um elenco de peso e uma investigação que se perde em quase 2h de filme


Liam Neeson, Jessica Lange, Diane Kruger e direção de Neil Jordan, diretor de Traídos pelo Desejo e Entrevista com o Vampiro.

Quando a gente vê o peso desse elenco e da direção, logo pensamos no grande filme que estará na tela diante de nós, pois bem, a frustração é grande, bem grande.

Baseado no romance The Black-Eyed Blonde, de John Banville, "Marlowe" ou "Sombras de um Crime", que estreia nos cinemas brasileiros em 30 de março, é um suspense noir que se passa em Los Angeles no final dos anos 30 e conta a história de um detetive (Liam Neeson) contratado por uma bela e rica mulher (Diane Kruger) para investigar a morte de seu amante (François Arnaud) que ela supõe estar vivo.

Claro que em se tratando de uma investigação e de elementos neo-noir, Neil Jordan até que o faz muito bem. O efeito amarelado das cenas, ambientações escuras e figurino que remete à época são bem trabalhados, mas a história em si é cansativa e se perde em meio a tantos diálogos intermináveis.

O espectador fica, num primeiro momento, interessado em saber se Nico Peterson (François Arnaud) está ou não vivo e se interessa em descobrir o porquê de ele ter se afastado de sua amante, mas a impressão que se tem é que há muito falatório para se chegar a lugar algum.

Até mesmo a personagem de Jessica Lange é mal aproveitada, pois, a não ser a grande semelhança física entre ela e a filha (Diane Kruger) o papel dela é quase que insignificante, mesmo o Liam Neeson (Phillip Marlowe) por mais que seja o protagonista da história, não difere de outros papéis que ele já fez.

É um filme fraco e cansativo, com um elenco de peso que não sustenta o filme, com uma história de detetive que deveria entreter, mas se perde e cansa e mesmo querendo usar da metalinguagem (o cinema falando do próprio cinema) não atrai.


quarta-feira, 22 de março de 2023

O Acre existe e é aqui


 Sempre que a gente ouve falar algo sobre o Acre sempre tem alguém que brinca dizendo que o Acre não existe, mas a gente assistindo a Noites Alienígenas, filme dirigido por Sérgio de Carvalho e que estreia nos cinemas brasileiros no próximo dia 30 de marco, a gente percebe que o Acre está mais vivo do que a gente pensa.

O longa é o primeiro filme feito inteiramente no Acre e retrata bem a Amazônia urbana. Amazônia essa já completamente contaminada pelo tráfico de drogas feito por jovens que arriscam suas vidas para, quem sabe, terem mais qualidade de vida.

Mesmo diante dessa nova realidade, vinda de cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro, ainda se vê a figura de povos tradicionais que resistem a todo custo a esse novo modelo conflituoso vindo à região nos dias atuais.

Vencedor de prêmios como o Kikito de ouro do Festival de Gramado de melhor filme, melhor ator (Gabriel Konxx), melhor ator coadjuvante (Chico Diaz), atriz coadjuvante (Joana Gatis) e Menção Honrosa ao ator Adanilo Reis, "Noites Alienígenas"traz consigo, além de uma realidade cada vez mais presente não só na Região como em todo país, um tema que precisa muito ser discutido, que é o tráfico de drogas praticado por jovens abaixo dos 20 anos de idade.

Porém, depois que somos apresentados aos personagens e a trama vai se desenrolado, o filme parece que é mais do mesmo e começa a se perder.

Parece que fios não são atados e nós não se desenrolam e a alusão a alienígenas é uma mera citação, algo fantasioso - que pode estar ligado ao uso de drogas ou não, como um efeito alucinógeno e que, de certa forma, quebra a realidade nua e crua apresentada a maior parte do tempo e que torna um assassinato como simples obra de forças extraterrestres.

Não se pode negar a qualidade da fotografia, o início que mostra como se houvesse uma simbiose entre o usuário de droga e uma cobra, nos fazendo refletir se aquilo é real ou é ilusão.

O som também é algo que se torna essencial e o crepitar de cada tragada em um baseado ou simples cigarro nos  coloca como personagem dentro do filme, mas há muito mais que se poderia ter sido explorado ou explicado para que tivéssemos algo mais coeso e coerente.

Mas, é claro, assim como o cinema brasileiro atual, é um bom filme e que merece ser visto e discutido por todos, afinal, o problema do tráfico de drogas não está somente na ficção, é algo real e presente não só no Acre, mas em diversas regiões do Brasil.


"SKINAMARINK: CANÇÃO DE NINAR" É O MEDO QUE ESTÁ DENTRO DE NOSSAS CABEÇAS


 Nem todo filme de terror é igual. Tem sangue, morte, susto a valer e "Skinamarink; canção de ninar" está aí pra provar que o terror não precisa ser explícito pra causar medo, ele pode estar em nossas mentes e ser ainda mais assustador.

"Skinamarink: canção de ninar", que estreia nos cinemas no próximo dia 23/03, é dirigido por Kyle Edward Ball  é diferente de todo o tipo de terror que você já possa ter assistido.

Com câmera em sua maioria estática, diálogos quase inexistentes, o filme tem cerca de 1h30 e, por mais parado que seja, pra mim, é como se ele tivesse apenas 20 min. Tudo é totalmente inesperado. Não vemos as personagens, um local inteiro, tudo é fragmentado, escuro, com imagens que parecem ter sido filmadas por uma câmera Super-8.

Segundo sinopse, que se não existisse, mal saberíamos do que se trata, uma menina de seis anos e seu irmão de quatro anos acordam uma manhã e descobrem que todas as portas e janelas dentro de sua casa desapareceram. Os pais também desapareceram e elas se encontram completamente sozinhas em casa, acompanhadas, apenas, de seus brinquedos e de uma TV que passa desenhos clássicos.

São recortes da TV, do ambiente que estão, de pecas de lego espalhadas pelo chão o que vemos. Tudo o que acontece é extra campo. O som é perturbador e o que nos assusta é a nossa imaginação, de pensarmos o que aconteceu naquela casa, o que de sinistro acompanha aquelas crianças e o que acontecerá a elas.

O aflitivo do filme é justamente imaginar o que vai acontecer, é esperar por algo que não acontece, a não ser em nossas mentes, ou seja, ao mesmo que não dá medo, dá muito.

Pra quem procura algo diferente de tudo do que já viu, é uma boa pedida.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Pânico continua sendo uma franquia que não decepciona


Acho importante começar esse texto confessando que não assisti a todos os filmes da franquia Pânico porque eu tenho um problema muito sério com filmes de terror. Não por não gostar, mas porque realmente de uns anos pra cá eu tenho muito, mas muito medo de filmes de terror. Tenho forte taquicardia, me dá ansiedade e eu realmente passo mal e, por isso, costumo não assistir a esse gênero.

Porém, resolvi que tinha que encarar o desafio e aceitei o convite da @paramountbrasil e da @lab_atomica pra cabine de imprensa e garanto que foi libertador e incrível.

Também é preciso dizer que aqui são apenas algumas impressões minha sobre o filme, um pouco da minha experiência ao assisti-lo e que é a MINHA opinião sobre o que assisti. Então, vamos lá!

Geralmente, a gente tem o hábito de dizer que numa franquia, o 1º filme é o melhor de todos e a partir do 2º a coisa desanda, o que, com Pânico VI, acho que não acontece.

Eu vi os três primeiros filmes e, agora, anos mais tarde, assisti a esse 6º filme e devo assistir aos demais que não vi, mas acredito que a franquia Pânico está aí pra provar que sim, sequências podem sim ter o seu valor.

Com 2h02 min de duração, o longa dirigido por Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett e que chega hoje aos cinemas brasileiros é aquele filme que te prende desde o primeiro minuto e são raros os momentos que te deixam respirar.

Claro que é um filme recheado de clichês como as festas adolescentes, flertes entre as personagens, mas é também um grande culto aos filmes anteriores. É o cinema que fala de cinema. É Pânico que fala de Pânico não só com a aparição de personagens de filmes anteriores - Kirby Reed (Hayden Panettiere) e Gale Weathers (Courtney Cox) - como as próprias personagens do filme tentarem descobrir quem está por trás do Ghostface, relembrando e tentando reconstruir o passo a passo do que se acontece em filmes de terror e tentando colocar cada um ali como suspeito dos diversos crimes que estavam sendo cometidos.

Aliás, é importante ressaltar que, os sobreviventes do filme anterior (Tara, Sam, Chad e Mindy) saem de Woodsboro para começarem uma nova vida em Nova York. Queriam apagar o passado aterrorizante que deixaram na antiga cidade e nada melhor do que recomeçar numa cidade grande, mas apesar de se passar em Nova York, são poucos os momentos que a gente percebe que a história se passa mesmo por lá.

Um fato interessante é o espectador perceber que nem sempre o mocinha (vítima) é tão mocinha assim. Sam (Melissa Barrera), apesar dos traumas que sofreu, diz que se sente bem por ter assassinado alguém e esse pensamento a perturba bastante durante todo o filme.

É um filme dinâmico, aterrorizante, sangrento e bem nostálgico que me fazem querer ver e rever os filmes anteriores até mesmo para sentir o quanto ele mudou (ou não). Também é recheado de momentos engraçados que te fazem aliviar um pouco da tensão.

Ah, a quem for assistir, saibam que tem pós crédito, divertidíssimo, por sinal.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Muribeca é a personagem de sua própria tragédia


 Um dia você compra uma casa achando que, nela, viverá pro resto de sua vida, eis que anos mais tarde, alguém diz que há problemas com a construção e, ali, sua vida praticamente acaba.

Isso é o que aconteceu com Muribeca, um conjunto habitacional no bairro de Guararapes, Pernambuco. Devido a problemas estruturais, a comunidade que vivia feliz, unida e quase sempre em festa, acorda com a notícia que todos devem se mudar.

Muribeca, é um documentário dirigido por Alcione Ferreira e Camilo Soares e que estreia amanhã, 2 de marco nos cinemas.

Nele, através de depoimentos de gente que viveu em Muribeca e que ainda vive em seu entorno, Alcione e Camilo mostram o quanto sofrem essas pessoas e o quanto resistem aqueles que não vem sentido em se acabar com um conjunto habitacional.

Não é preciso muito para o espectador entender o que se acontece por lá. O poder e o dinheiro falam mais alto e é a comunidade e seus moradores que padecem com a ganância daqueles que querem desconstruir espaços impulsionados por interesses econômicos.

Não só prédios viraram pó. Sonhos, famílias e memórias foram apagadas e, misturando imagens da época em que Muribeca era viva e agora, Alcione e Camilo nos mostram que tudo é facilmente destruído sem dó.

Construções foram demolidas, famílias remanejadas, estabelecimentos foram fechados e o que sobrou foram a indignação e a tristeza de centenas de pessoas que moravam por ali.

É um documentário excelente para se entender o que acontece muito ainda aqui no Brasil, país em que poderosos só pensam em seus próprios bolsos e benefícios e que pouco se preocupam com quem luta diariamente pra ter um pedaço de chão.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

A gente não imagina o quanto um filme pode ser devastador até assistir a Close


Existem amizades que vêm, literalmente, de berço. Aquela coisa mesmo das famílias serem super amigas, terem filhos e esses filhos crescessem como se fossem irmãos.

Há quem diga até que um amigo pode ser, ainda, mais amado que um irmão e, como qualquer relação entre irmãos, há carinho, afeto, cumplicidade e, claro, amor, muito amor.

Lukas Dhont nos presenteia com Leo (Eden Dambrine) e Rémi (Gustav de Waele) em Close, filme que estreia dia 2 de março nos cinemas brasileiros e entra no catálogo da MUBI a partir de 21 de abril.

Com 13 anos, Leo e Rémi são amigos de infância. Passam a maior parte do dia juntos, Leo costuma dormir na casa de Rémi, os dois sempre jantam juntos e um é a família do outro. São amigos/irmãos e da mesma forma que o filme é de um colorido vibrante e cheio de vida, a amizade dos dois também o é.

Porém, algumas famílias costumam educar seus filhos ensinando-lhes que, principalmente dois meninos andam muito juntos ou dois homens andam muito juntos, demonstrando publicamente afeto e carinho, isso quer dizer que, ali, há uma relação homossexual.

E é quando eles vão à escola, juntos, que os questionamentos começam e os colegas começam a insinuar que dessa relação entre irmãos há uma relação homoafetiva.

Se fossem dois adultos maduros talvez fosse fácil dar de banda à essas insinuações, mas quando se tem 13 anos esses questionamentos ferem a ponto de afastar dois amigos que sempre estiveram unidos realmente como irmãos.

A partir desse afastamento, surgem brigas e dessas brigas algo muito triste e trágico acontece, afetando para sempre a trajetória desses meninos e dessas famílias.

O interessante no filme é justamente como o diretor Lukas Dhont nos escancara essa realidade que nos rodeia todos os dias. Como ele afasta e aproxima a câmera, o jeito como a coloca fixa em algum ponto ou corre com ela em mãos pra pra nos provocar as mais diversas sensações.

As pessoas são perversas, as crianças podem ser sim más e tecerem comentários que ferem mais do que uma facada no peito ou um osso quebrado em um dos braços.

Raros são aqueles que vêem a pureza das coisas e das pessoas. A maioria julga sem dó e sem pensar a que consequência isso pode levar.

Close é um filme lindo, cheio de flores, colorido, mas triste demais. Na sala de cinema que eu estava no dia da exibição não teve uma só pessoa que não tenha saído chorando dos cinemas e, assim como eu, não deve ter ficado dias e dias pensando em tudo o que podia ser diferente e como o preconceito destrói vidas assim como pragas destróem uma plantação.

Assim como a terra revolta, a vida da gente tem que estar sendo diariamente preparada pra novas sementes que vingarão ou que fenecerão. e nós, como plantadores, devemos estar sempre atentos ao que pode servir adubo bom ou ruim. Devemos ensinar desde cedo aos nossos que o ferrão das abelhas é dolorido, mas eles, apesar de muitos e às vezes frequentes,  são só ferrões e as picadas doloridas cicatrizam.

Dentro da caixa de Pandora, apesar dos males que se espalharam pelo mundo, sobrou a esperança e é nela que temos que nos agarrar pra combater todo esse preconceito e julgamento que há no meio de nós.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Em "A Baleia", Aronofsky nos mostra que é impossível alguém ter empatia perante a obesidade

 


Não é fácil assistir ao filme de Aronofsky. Não é fácil ver aquele homem daquele tamanho, sofrendo, se empanturrando de comida quando triste ou nervoso e não fazermos um paralelo com a vida que a gente leva, com as tristezas presas aos ombros ao longo dos tempos e dos nossos dia a dias.

Pra mim, foi doído demais assistir ao filme "A Baleia", dirigido por Darren Aronofsky e que estreou nos cinemas brasileiros no último dia 23 de fevereiro.

Foi doído porque por centenas de vezes me senti triste, estressada, nervosa e desamparada e foi na comida que encontrei conforto e, posteriormente, culpa.

Não sou uma pessoa gorda e estou muito longe da obesidade mórbida, mas há anos luto para chegar a um peso que tinha e que, provavelmente, não terei mais. Sinto dores nas costas, nos pés, no joelho e sei que todas essas dores não são apenas por conta da idade, são por conta de um excesso de peso que me custa perder, justamente porque ainda é na comida que eu encontro momentos de alívio, mas um alívio que dói, e que é algo que parece ser quase impossível de fugir.

No filme, Charlie, interpretado brilhantemente por Brendan Fraser, é um professor de inglês que, por sua condição de obesidade mórbida, ministra suas aulas de maneira on-line e com a câmera do computador desligada, justamente para que seus alunos não tenham repulsa de sua aparência obesa e deformada.

Charlie se recusa a ter ajuda, talvez por sua vida não ter mais sentindo após a morte de seu namorado. Aliás, foi isso que  levou a ganhar tanto peso a ponto de chegar à situação que chegou.

Pra mim, essa recusa de querer ajuda não me incomoda, mas me incomoda o fato de que pras outras pessoas, está tudo bem.

A própria amiga/enfermeira (Hong Chou) que o ajuda, sabe que ele está morrendo, está presente em momentos como engasgos, fortes dores no peito, diz que se preocupa com ele, mas o ajuda, de certa forma, a se matar lentamente. Não insiste que ele deve ser internado e, após um engasgo forte enquanto comia um lanche que ela mesmo lhe deu, ela pega o mesmo lanche e diz que ele pode continuar comendo.

Não sei se Aronofky quer que tenhamos pena desse homem imenso, mas se é isso, ele exagera e muito, chegando a ser um tanto quanto irritante. 

A gente sente pena por ele ser do tamanho que é, a gente sente pena por ele sofrer por conta da morte de seu grande amor, a gente sente pena pela forma que a filha o trata, sente pena da maneira como os poucos com quem ele tem contato o veem, ou seja, tudo é um exagero sem fim.

Exagerada também é a música colocada no filme, uma música sempre num crescente irritante pra que tenhamos a impressão que estamos mergulhados no mar acompanhado de baleias.

Por falar nisso, apesar de podermos associar o tamanho de Charlie ao de uma baleia, a impressão que se tem é que ele seria o Jonas dentro da baleia. ao longo de uma semana, acompanhamos Charlie preso dentro de casa, uma casa cinza e com pouca iluminação, com um exterior sempre chuvoso e, de certa forma, assim como a passagem da Bíblia, em busca da redenção divina.

Redenção essa que deveria vir de seu acerto com a filha, interpretada por Sadie Sink que não conseguiu deixar de lado seu papel como Max de Stranger Things. Ela é brusca e arredia como Maxine, mas, diferente do universo adolescente da série, nem Brendan Fraser consegue salvar a sua atuação.

Enfim, a gente dica angustiado diante daquele homem gigante, mais gigante ainda pelo fato de Aronofsky ter optado por filmar em tamanho 4:3 justamente para nos dar essa impressão de aperto e ficarmos incomodados com aquele personagem, mas é, de certa forma, um filme problemático já que não mostra uma só pessoa tendo uma atitude diferente perante aquele homem obeso à beira da morte, Ele reforça que a obesidade só leva ao sofrimento, ao preconceito e não há absolutamente ninguém que possa ter um olhar humano diante dessa situação.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Mato Seco em Chamas é o Brasil sem máscaras


Três mulheres, Leia, Chitara e Andrea, da favela Sol Nascente, na Ceilândia são conhecidas como as gasolineiras de Kebradas e suas histórias são conhecidas dentro e fora das paredes da Prisão Feminina de Brasília. Refinando o petróleo que elas mesmas extraem e revendendo o produto a motociclistas, elas lutam pelo petróleo, que deveria ser um produto do povo Num misto de ficção com documentário, Adirley Queirós e Joana Pimenta, mostram, ao espectador, um Brasil nu, cru e sem máscaras, que revela o quanto padece a população mais necessitada do país. Mato Seco em Chamas estreia no próximo dia 23 de fevereiro nos cinemas e traz no elenco mulheres fortes e reais. Mulheres destemidas que lutam diariamente por um país mais justo. País esse que não dá oportunidades e que oferece o crime como algo compensador, apesar de se saber que ele traz também sérias consequências. O mais interessante do filme é o fato das atrizes não serem realmente atrizes, serem mulheres reais que passam dificuldades, foram presas e lutam por seus filhos e para sobreviver. Mesmo estando diante de partes ficcionais que lembram o filme Mad Max (1979) de George Miller, Mato Seco em Chamas é potente e político, é corajoso em mostrar qual recurso que o Distrito Federal usa para se acabar com o tráfico de drogas e que, mesmo num país futurista, liderado por mulheres, que querem tudo mais digno e justo, não se tem um só dia de paz. Nada no filme é rebuscado. A iluminação é quase sempre amarelada e cercada de fogo. O figurino lembra mesmo ao de Mad Max e há o contraste entre a fé e o fanatismo político, esse último que veio a eleger um genocida ao poder. Mato Seco em Chamas denuncia e sufoca. Clama por urgência na resolução da desigualdade que assola não só a Ceilândia, mas todo país e prova que mulheres não são um sexo frágil, são lobas, leoas e líderes e que, em sua maioria sozinhas, são independentes e estão dispostas a fazer qualquer coisa para sobreviverem, afinal, num país que prega um Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, não há nada o que se pode fazer a não ser lutar e sobreviver.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Babilônia e a ode ao cinema


“A vida é um filme.” E se formos pensar em Babilônia, a vida seria não só um filme como também uma festa.


É uma festa mais do que de arromba. Uma festa regada a muita bebida, drogas, sexo e esquisitices dignas do surrealismo de Salvador Dalí.


E é assim que. Babilônia, filme dirigido por Damien Chazelle é que estreia no próximo dia 19 de janeiro,  se inicia, com uma festa insana e megalomaníaca, com gente que a gente nem imagina quem seja, mas que vamos, aos poucos, desvendando quem são, seus medos, ambições e fragilidades.


Babilonia fala sobre a passagem do cinema mudo para o falado, mostrando a ascensão e queda, durante 3h e 8 minutos de filme, de, principalmente, 3 personagens chave da história - Jack Conrad (Brad Pitt), Manny Torres (Diego Calva) e Nellie La Roy (Margot Robbie). Além disso, escancara que todos nós, na vida, temos o nosso tempo de tela. Nada é para sempre e o sucesso é efêmero.


O interessante aspecto do longa é o fato de a extensa duração não prejudicar em nada o filme.


O ritmo frenético das festas é o mesmo dos sets de filmagem e tudo é muito bem acompanhado de uma trilha jazzística- marca presente nas obras de Chazelle - que, não à toa ganhou o Globo de Ouro de melhor trilha sonora agora em 2023.


Por sinal, não só a trilha sonora é incrível. O jeito como o som é incorporado na história é espetacular.


Chazelle sabe exatamente o quanto o silêncio é preciso e algumas cenas a forma como ele as utiliza é sensacional.


Nos sentimos mesmo passando do cinema mudo ao falado e, ao mesmo tempo, o quanto as vozes tão atuantes e importantes do cinema mudo são caladas quando o cinema inicia a sua transformação.


Além do aspecto sonoro, Margot Robbie mostra o porquê é considerada uma das grandes atrizes da atualidade.


Brad Pitt, apesar de inicialmente remeter a seus personagens em Bastardos Inglórios e Era uma vez em Hollywood, se mostra um grande ator e, se destaca e se diferencia em cada papel que se propõe a fazer.


Babilônia é grandioso. Tem planos sequências incríveis, cenas em que o campo e contra campo são importantíssimos e dizem muito sem mostrar nada e dão ainda mais importância ao filme.


Chazelle faz uma obra prima ainda mais onipotente do que Whiplash e La la land e, além disso, faz uma homenagem ao cinema e, principalmente a Cantando na chuva, encantando e finalizando o longa de maneira brilhante.


Deve pintar indicação ao Oscar por aí.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Corsage mostra o drama da mulher acima dos 40


Você já ouviu falar em Corsage? Corsage é  o famoso espartilho que as mulheres de muito antigamente costumavam usar sob o vestido para terem uma cintura mais definida e parecerem mais magras.

É também aquela flor que as formandas americanas costumam usar como uma pulseira no dia da formatura e que são meramente decorativas.

Corsage, longa dirigido pela cineasta Marie Kreutzer conta a história da imperatriz Elizabeth da Áustria (Vicky Krieps) que, comemora seus 40 anos, idade avançada pra época, com o peso de já não ser mais tão bela e jovem e na iminência de ser vista apenas como mero item decorativo.

O interessante do filme é justamente ver o quanto se cobra de uma mulher madura e mais velha. Ela ouve (indiretamente) que está velha, se preocupa em estar gorda, sendo que é magra e esguia e não tem voz pra nenhuma decisão.

Claro que sabemos que estamos diante de 1880 e pouco, mas é incrível como essa coisa de ditadura da beleza é algo que sempre existiu e cobranças pra que ela seja uma esposa obediente devendo estar sempre impecável, é algo que permanece, infelizmente, ainda hoje no século 21.

Os homens, tanto hoje como àquela época, não são cobrados por seus corpos ou por sua idade. Podem ser vistos com outras mulheres, serem feios e barrigudos que está tudo bem. A mulher, por outro lado, além de ter que estar sempre dentro do peso (magro por sinal), não pode se divertir e ser vista conversando com um homem já é sinal de estar traindo o marido.

Assim como as flores nas pulseiras das debutantes de hoje, mulheres daquela época são meramente decorativas e não podem se envolver nas decisões de absolutamente nada. Devem se preocupar com os filhos, com tarefas como equitação, bordado, não devem fumar e, muito menos, participarem dos negócios e decisões de seus maridos.

Mais de 100 anos de evolução não são suficientes pra que as mulheres sejam como elas querem e tenham os corpos que bem entenderem. Mesmo saudáveis estando acima do peso, são mal vistas e tem sempre alguém pra lhe apontar estão fora dos padrões que as capas de revistas estampam aos montes por aí.

Ninguém diz a um homem que ele está fora dos padrões, que deve esconder sua barriga, disfarçar a calvice e cuidar da pele enrugada.

Marie Kreutze reforça que a mulher pode ser sim quem ela quiser, ter o cabelo que quer e comer o que bem entender, inclusive, umas das melhores cenas do filme é quando a imperatriz Elizabeth, cansada já de tanto esforço para emagrecer, se refestela num pedaço generoso de bolo de nata.

A fotografia do filme parece um quadro pertencente ao realismo e tem como cena final uma das cenas mais bonitas do universo cinematográfico, sendo acompanhado da música "She was"composta pela cantora e compositora francesa Camille.

Corsage é um filme sobre mulheres e para todas as mulheres.Vicky Krieps, além de belíssima, dá vida a todo o sofrimento da imperatriz Elizabeth. Vale muito a pena ser assistido e estreia nos cinemas brasileiros no próximo dia 12 de janeiro

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Aftersun é a dor que habita dentro de nós


Viver dói, machuca, mas quando somos crianças, além de não termos preocupações e boletos para pagar, a gente não faz ideia do quanto Guimarães Rosa estava certo em dizer que "Viver é muito perigoso".

Aliás, quando crianças, a gente não só não conhece Guimarães Rosa como também não conhece a vida  e não sabemos o que se passa dentro da mente e do coração de nossos pais e, talvez, a gente só comece a entender um pouco disso quando nos tornamos adultos ou, mais ainda, quando nos tornamos pais.

É já adultos que temos a dimensão das dores que carregamos dentro de nós e, talvez, comecemos a refletir sobre o passado e passemos a entender que um olhar perdido de nossos pais possa significar a dor que habita neles e que eles fazem de tudo para escondê-la de nós, assim como hoje escondemos dos nossos filhos os nossos temores, nossas preocupações e nossas dores dilacerantes,

Aftersun, primeiro longa da diretora Charlotte Wells é sobre voltar ao passado, à época de infância e tentar se colocar no lugar de nossos pais e entender de alguma forma o que se passava dentro deles.

Sophie é uma menina de 11 anos que, em férias com o pai pela Turquia, além de estar descobrindo o que é o universo adolescente, tenta entrar um pouco no universo do jovem pai de 30 anos, Callum, que guarda só pra si medos, dores e rancores que Sophie está tentando entender após 20 anos dessa inesquecível viagem.

O modo como Charlotte nos mostra tudo isso é sensível e delicado. Além de espectadores, somos os olhos atrás da câmera VHS que ora Sophie e ora Callum carregam. O sofrimento de Callum não só é visível em seu olhar como também na maneira como durante as filmagens que eles mesmo fazem durante a viagem, ele fica encolhido no canto da tela ou é apenas um reflexo numa pequena TV do quarto do hotel.

Enquanto Sophie cresce como menina, é Callum que diminui como homem e como pai.

A gente termina Aftersun com a sensação de grito preso na garganta, e ouvir Under Pressure (Queen) daqui pra frente é se sentir devastado e sozinho numa praia da Turquia,

Aftersun é dor, memória e o sofrimento que todos nós carregamos dentro de nós e escondemos diariamente daqueles que mais amamos, pois é um sofrimento só nosso e de mais ninguém.

(Além dos cinemas, está disponível na plataforma MUBI)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

"Gemini Planeta Sombrio" sonha em ser Alien , o 8º passageiro

 


Lá nos idos de 1977, era o início da preservação de massas e Lavoisier já dizia "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", mas, muitos anos mais tarde, alguém sentenciou: "Na natureza nada se cria, tudo se copia"e podemos dizer que no Cinema, também, nada se cria e tudo se copia.

E o longa "Gemini: O Planeta Sombrio"tá aí pra provar isso.

Dirigido por Vyacheslav Lisnevky e Serik Beyseu, o filme, que tem estreia nos cinemas brasileiros em 5 de janeiro, conta a história de uma equipe de cientistas enviada pra outro planeta em uma missão pra tentar recuperar a Terra que vem sendo devastada por um vírus mortal.

Brincando de Deus e numa arrogância peculiar, Steve,  protagonizado por Egor Koreshkov, põe toda a tripulação em risco ao insistir que uma esfera seja deixada numa caverna, pois ele acredita que essa é a única solução para salvar o Planeta Terra.

O filme é nitidamente baseado em "Alien, o 8º passageiro", de 1979, dirigido por Ridley Scott. Uma tripulação tem a missão de salvar o Planeta Terra, mas acaba se deparando com um ser misterioso que acaba atacando e matando membros da tripulação, além, é claro, de causar verdadeiro terror no espaço.

A forma do monstro de Gemini é muito semelhante ao alien do filme Alien, o 8º passageiro, o som que ele emite também é o mesmo e várias passagens do filme remetem ao longa de 1979, mas diferente da versão de Ridley Scott, o alien de Gemini é um bio robô.

Claro que é um filme que prende, o suspense é intensificado com o retardamento da narrativa clichê de cenas em que luzes vão se apagando para anunciar a aproximação da criatura, mas não há nenhum elemento realmente novo que faça com que o filme seja melhor do que a genuína de 1979.

Estamos diante de uma criatura desconhecida, de um homem brincando de ser Deus, de saltos no tempo e espaço e uma música melancólica que acompanha muita gosma durante o filme.

Pra quem gosta do gênero e quer relembrar um pouco de Alien, o 8º passageiro é um prato cheio e pra outros é apenas uma boa maneira de se passar o tempo.

"Nossa Senhora do Nilo"reabre as feridas do massacre em Ruanda


"Eu lembrava-me de tudo: do Ginho, da pressão-de-ar, da Isaura e das feridas penduradas do Cão Tinhoso. Nunca me esqueci disso: um cão com feridas penduradas. Os olhos do cão. Os olhos da Isaura. E agora de repente me aparecia tudo ali de novo."

É dessa maneira que o escritor Ondijak começa seu texto e o filme "Nossa Senhora do Nilo", dirigido por Atiq Rahmi, apesar de africano como o conto de Ondijak, nada tem a ver com as feridas penduradas do Cão Tinhoso, mas tem a ver com as feridas abertas que o massacre em Ruanda entre os anos de 1990 e 1994 provocaram.

Numa escola religiosa católica pra meninas da elite de Ruanda, no alto de uma colina e totalmente isoladas do mundo, meninas sonham em ser esposas, mães, artistas de cinema e deusas. Elas não sabem o que acontece em seu país e questionam que Deus abençoa os negros.

É um Deus que devia ajudá-las, orientá-las e protegê-las, mas nessa escola, as forças dos homens mortais são mais forte e uma adolescente grávida é vergonha e desaprovação.

Também é proibido ter contato com bruxas, falar o idioma local e conversar em afazeres diários como a limpeza de uma biblioteca ou de uma santa.

Esse Deus tão presente em seu dia a dia parece tirar férias quando elas mais precisam de sua proteção e elas ficam abandonadas quando o lugar que elas vivem vira palco para lutas políticas e incitações para crimes raciais.

Pra quem não sabe, entre os anos de 1990 e 1994, uma Guerra Civil se instaurou em Ruanda motivada pela disputa étnica entre os hutus e tutsis e a escritora Scholastique Mukasonga, autora da obra de mesmo título do filme e que inspirou o diretor Atiq Rahmi, é uma das sobreviventes do massacre em Ruanda e, portanto, personagem dessa história contada por ela e muito bem retratada por Rahmi.
"Houve um silêncio como se tivessem disparado bué de tiros dentro da sala de aulas. Fechei o livro. Olhei as nuvens."e assim termina o conto sobre o Cão Tinhoso de Ondijak, mas na história de Mukasonga dispararam mesmo bué de tiros dentro da sala de aula, houve silêncio, mas eram pessoas que morriam por serem negras.

"Na oitava classe, era proibido chorar à frente dos outros rapazes.", mas nós choramos com o destino de quem acompanhava Mukasonga e ficamos chocados por perceber que, diferente das feridas do Cão Tinhoso, as feridas de Ruanda são reais e ainda doem.

"Nossa Senhora do Nilo", estreia no próximo dia 5 de janeiro nos cinemas, tem 93 minutos e é distribuído pela Pandora Filmes.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A descoberta de uma mulher de meia idade em "Como agradar uma mulher"


Uma mulher com mais de 50 anos perde o emprego, vê seu marido totalmente desinteressado e, quando faz aniversário e suas amigas lhe dão de presente um stripper por 2h, o que ela pede a ele é que ele limpe a sua casa.

Quando uma mulher envelhece tudo acaba? Não há mais oportunidade de emprego, o interesse sexual diminui drasticamente e a única função para o qual ela ainda tem serventia é a de realizar os afazeres domésticos, é isso?

Não deveria ser assim, mas para muitas mulheres que entram na meia idade é exatamente o que acontece.

E é pensando nisso que a cineasta Renée Webster quer, em seu primeiro longa, que o espectador reflita sobre a inutilidade feminina após os 50 anos.

"Como agradar uma mulher", que estreia na próxima 5ª feira, 29/12, nos cinemas, nos apresenta Gina, uma mulher de um pouco mais de 50 anos que se reinventa ao perder o emprego e, ao conhecer 4 homens de uma empresa de mudança falida (sendo um deles um stripper), tem a ideia de oferecer às mulheres algumas horas de prazer sexual com um desses homens ou simplesmente o prazer de verem sua casa sendo limpa por um homem bonito e com barriga cheia de gominhos.

A velhice não chega bem a ninguém, mas pra uma mulher, além da mudança corporal, parece que todas as portas começam a se fechar. Há a vergonha por não se ter um corpo bonito, o mercado de trabalho se torna escasso e até mesmo sentir prazer parece ser um assunto quase que proibido e um verdadeiro tabu.
E é por meio da personagem de Gina que Renée Webster nos mostra essa dura realidade.

Gina perde o emprego, seu marido já perdeu o interesse nela há anos e até mesmo num vestiário feminino ela se vê fechada e infeliz, o que a impossibilita de se mostrar nua em frente às amigas.
É a possibilidade de dar a outras mulheres aquilo que ela não teve é que Gina começa a se transformar.

Num estilo "Ou tudo ou nada", filme de 1997 dirigido por Peter Cattaneo, as personagens masculinas aceitam a proposta de Gina e, assim como ela, começam a aprender como olhar uma mulher e como entender a necessidade de cada uma. Na vida, nada é mecânico e nem todas as mulheres são iguais. Muitas estão infelizes com o trabalho, com o corpo, com o casamento e querem ser vistas como seres humanos e não só como mero organizador do lar.

"Como agradar uma mulher" é divertido, sensível e Renée acerta na maneira em como mostra uma mulher de meia idade infeliz e no seu desabrochar a medida em que perde o medo da vida. Vemos sua transformação e seu empoderamento e percebemos que as mulheres podem ser e fazer o que quiserem em qualquer que seja a idade.



domingo, 4 de dezembro de 2022

Sol e as fragilidades das relações humanas


 O que liga as pessoas nessa vida são os vínculos, que podem durar um tempo, ser pra vida toda, ou simplesmente se romper abruptamente.

Mesmo que seja sangue do mesmo sangue, há laços que se quebram e são extremamente difíceis de serem resgatados. É como uma louça que se parte em centenas de pedaços. Nem sempre há cola que possa juntar com perfeição algo que se quebrou.

E assim como as águas de rio e mar que nem sempre se encontram, o longa Sol, dirigido por Lô Politi e que estreia no próximo dia 08 de dezembro nos cinemas, nos apresenta a Theo, interpretado de maneira brilhante por Rômulo Braga, um artista solitário, pai de Duda (a estreante Malu Landim) que perdeu vínculo não só com ela a quem não via há cerca de um ano, e com seu pai, Theodoro (Everaldo Pontes) o qual ele descobre, através de insistentes telefonemas, que se encontra em estado delicado num hospital no interior da Bahia.

Cumprindo o papel de filho sem ao menos querer, Theo embarca em uma viagem com a filha para reencontrar o pai e decidir o destino dos três.

Interessante perceber que Theo não tem intenção nenhuma em reencontrar o pai, na verdade não quer nem mesmo ter mais o mesmo nome que ele e de Theodoro que em grego significa presente (dóros) de Deus (Theos) sobra apenas esse Deus que os une mesmo sem Theo querer.

Nessa briga interna em cumprir sua função de filho ou apagar da memória um tempo que não retorna mais, Theo ainda tem que se ligar à filha que, sem perceber, ele não conhece, pois não sabe nem do que ela gosta de comer no café da manhã.

Sol escancara as feridas abertas de Theo. Mostra o ódio que ele sente pelo pai e a fragilidade de sua relação com a filha. Aponta que Duda se conecta mais com o avô sem ao menos conhecê-lo do que com ele e que o vínculo pode ser criar tão facilmente quanto quando se quebrado.

Sol é um roadie movie que começa na água e termina na água. Águas ora calmas ora turbulentas como a vida de Theo e como a vida de todos nós. Águas que trazem boas lembranças, que machucam e que constroem lembranças novas. Águas que estreitam laços e desfazem nós, que dão e tiram vidas, mas que marcam e não nos deixam esquecer.






terça-feira, 29 de novembro de 2022

Plano A traz as feridas do holocausto abertas e nos fazem refletir se a vingança é a melhor solução.


 



Dizem que a vingança é um prato que se come cru ou talvez deva ser lenta e dolorosa, olho por olho, dente por dente e pro judeu que sobreviveu aos horrores do holocausto, essas máximas estão marcadas no corpo, na alma e no coração. 

Pensando nisso, o que você faria se toda a sua família fosse assassinada sem motivo algum?

E a resposta à essa pergunta é a reflexão que os diretores  Doron Paz e Yojay Paz querem que o espectador faça ao se deparar com Max, um judeu sobrevivente do holocausto que perdeu sua mulher e filho e agora pretende se vingar das pessoas que fizeram, não só a ele, mas milhares de judeus sofrerem.

Plano A, que estreia nos cinemas no próximo dia 01 de dezembro, é uma história baseada em fatos reais e acompanha a dor e a ira de Max e também o grupo de germano poloneses a quem ele se junta que, compartilhando da mesma dor, planeja manipular o abastecimento de água potável em várias cidades da Alemanha, jogando veneno nessa água e, eliminando assim, toda a população alemã.

É interessante ver como isso é planejado e como, na verdade, eles querem dar, aos alemães, o mesmo fim. O que não percebem é que, em meio a essa população, também há pessoas inocentes e que não apoiaram o extermínio de cerca de 6 milhões de judeus. 

Claro que, pensando em vingança, Tarantino também sugeriu o mesmo fim aos alemães em seu brilhante Bastardos Inglórios. Shoshana também queria vingança, mas na obra de Tarantino, a Alemanha ainda estava sob o domínio de Hitler. Em Plano A não. Os judeus já estavam livres e podiam, de alguma forma, reconstruir suas vidas, mas nós, que não tivemos a vida das pessoas que amamos ceifadas pelo holocausto, não poderemos, jamais, imaginar o tamanho dessa dor.

A dor de quem viveu o holocausto cega, ensurdece, machuca àqueles que, de alguma forma, escaparam e sobreviveram e se culpam por não terem conseguido salvar a quem tanto amavam. 

Acompanhando uma fotografia fria e escura, as cicatrizes do holocausto permanecem aprisionadas num saco de couro que Max recebe de um companheiro também sobrevivente e no cinema que, ao invés de alegrar e divertir, escancara os horrores do nazismo e surra ainda mais quem deseja esquecer.

Plano A é sobre sobrevivência, vingança e surpreende no final, mas não deixa que você se esqueça da pergunta inicial: O que você faria se roda a sua família fosse assassinada sem motivo algum?


domingo, 6 de novembro de 2022

Arthur Moreira Lima mostra que a música é para todos


Mais de 1 milhão de pessoas em mais de 500 cidades do Brasil. Foi assim que entre 2002 e 2018 o pianista Arthur Moreira Lima resolveu, após ter rodado toda a Europa, levar seu piano e a música a pessoas que, muitas vezes, sequer haviam visto um piano.

É acompanhando essa incrível jornada que o documentário Arthur Moreira Lima - um piano para todos, que estreia nos cinemas no próximo dia 10 de novembro, mostra o quão simples esse renomado e premiado pianista é.

Com um caminhão teatro e sua música clássica, Arthur Moreira Lima leva música a todos gratuitamente.

Arthur que sempre deu a vida para tocar piano, rodou o mundo se apresentando em grandes concertos para pessoas que se dizem entendidas em música clássica, deixa para trás o luxo das grandes salas e se preocupa em fazer com que as classes mais baixas também tenham cultura e coisas de qualidade.

Durante 87 minutos somos a câmera que acompanha Arthur e sua equipe. Andamos em meio à lama, pegamos balsa e admiramos os olhares atentos de quem nunca ouviu Mozart, Chopin ou Tchaikovsky.

São olhares vidrados e apaixonantes. Olhares de quem se deixa levar pela música clássica e se deslumbra com as mãos ágeis de Arthur que dedilham com destreza e suavidade as notas mais graves e agudas, de concertos escritos há mais de um século e que, nos dias de hoje, trazem tanto alento.

Como ele mesmo diz, sua profissão, hoje, é ser Arthur Moreira Lima. Seu concerto ao ar livre se assemelha a uma missa campal e, assim como na vida e nas narrativas, a música também tem seus pontos culminantes e diferente de pessoas poderosas que acham que o pobre se satisfaz com uma laranja podre, Arthur lhes entrega um banquete digno de grandes castelos e mostra que a música alimenta a alma e é para todos.


Em pleno 2022, A Mãe nos revela que a ditadura não acabou.


Maria é mãe de Valdo. Mãe solo batalhadora que vive como camelô numa cidade em que não há emprego, comida e dignidade para todos.

Valdo é um adolescente que cursa o ensino médio, faz rap e sonha em ser jogador profissional. Não gosta dos estudos já que num mundo tão desigual tem que sobreviver de alguma forma.

Ambos são frutos de uma sociedade injusta, de um governo que não se preocupa com o pobre e de uma população que idolatra a milícia e a extinção dessa parcela pobre da população.

Podíamos aqui estar apenas falando de ficção, mas a gente sabe que o enredo de "A mãe, filme dirigido por Cristiano Burlan e que estreia nos cinemas no próximo dia 10 de novembro, extrapola o fictício e nos mostra que em pleno 2022 a ditadura militar permanece em forma de uma polícia que discrimina, tortura e mata, pois é essa a solução que muitos veem para acabar com a miséria que está cada vez maior e mais presente em nosso país.

Vencedor de vários prêmios no Festival de Cinema de Vitória, "A mãe"traz Marcélia Cartaxo como Maria, numa atuação comovente e que mostra o quão é sofrido viver no Brasil dos dias atuais.

O que acontece com Maria acontece diariamente nas periferias brasileiras. Mães procuram seus filhos e tentam entender o porquê vidas são ceifadas tão precocemente e o porquê não há igualdade e oportunidades para todos.

A câmera de Cristiano Burlan é observadora, parece estar sempre à espreita e faz com que imaginemos o teor do bilhete escrito por Valdo antes de sair para não voltar mais e o que ele levava dentro da mochila que faz com que a polícia militar resolva executá-lo.

"A mãe"é um filme duro, podia até mesmo ser documental e mostra que mesmo quem está dentro da comunidade é pressionado pelos chefões que dizem proteger o lugar e fora dele nem a polícia civil e nem a militar ampara quem é pobre, negro, marginalizado.

Há de se demorar muito para se ter um mundo mais igualitário, justo e o filme de Burlan só mostra que essas pessoas vivem sob o medo e que muitas vezes o som do cotidiano são ofuscados pelas batidas fortes do coração acelerado que não tem um minuto de paz e serenidade, pois assim como o poeta já nasce com a palavra dentro dele, o pobre já nasce com um destino injusto traçado e poucos são os que  conseguem se livrar desse destino.

"Criaturas do Senhor" traz Paul Mescal e Emily Watson em discussão sobre abuso e maternidade.

Se você é mãe está lendo este texto, o que você faria para defender o seu filho? Acredito que muitas aqui responderiam a essa pergunta dizen...